segunda-feira, 24 de março de 2008

Hipocrisia

     Voltando de férias, trago muitas historias na bagagem. Foram dez ricos e intensos dias. Passei-os a relembrar, passear, divertir-me e sobretudo a meditar. Foi fantástico!
E assim como quem não quer a coisa, encontrei um manuscrito, já com o seu quê de antigo, pois já vai em sete anos de escrito. Na altura ainda escrevia sem saber bem o que fazia com a pontuação e com algumas sintaxes. É por isso que vou postá-lo aqui, corrigido e um bocadinho melhorado. - Sim um bocadinho! A quantidade ideal!

Assim vos apresento a minha própria cena, nunca antes editada, de "Auto da barca do inferno" cujo original foi escrito por Gil Vicente. Cena esta a que eu chamo de hipocrisia, à qual serve de alegoria.

Vindo demorada e calmamente, um senhor de vestes longas e predominantemente brancas, em direcção à barca da glória. Já próximo, é visível a sua generosa idade. E chegando junto do Anjo.

(Senhor): Louvado sejais, santo Anjo! Deixai-me entrar...
(Anjo): Ora, mas porque vos deixarei entrar?
(Senhor): Afinal, sou devoto de vosso mestre. E fui padre toda a vida.
(Anjo): E que vida! Pois, dizei-me, enquanto vivedes a pecar,
       não haveis pensado onde vindes acabar?!
(Padre): Mas é claro! Sempre esperei entrar em vossa barca. Tanto que fiz:
       missas celebradas, profeta da palavra do Senhor, devoto de dia e de
       noite, conversão de infiéis...
(Anjo, interrompendo): E desvio de réis?!
(Padre, mostrando convicção): O dinheiro é um chamariz... do Diabo.
       Tudo para nos levar ao pecado.
       Mas eu confessei-me, e castiguei-me...
(Anjo): Sem conta foram as vezes, é certo. No entanto, o verdadeiro
       arrependimento, é sentido à primeira.
       Para vós o Céu encontra-se encerrado.
       Ide... de qualquer modo, já estais inscrito nesse outro lado. (gesticulando com desprezo em direcção ao demónio):

E assim foi... o tão devoto padre, dirigiu-se à barca dos danados.

(Demónio, sorrindo sarcasticamente): Olha olha, um padreco!
       Depressa, entra entra.
       Que a barca não rebenta!
     (sussurrando para os demais):
       Agora é que se vai partir o caneco!
(Padre, benzendo-se): Cruzes, credo!
       Afastai-te besta infernal!
       Em mim não encontrarás a semente do mal!
(Demónio, surpreendido): Achais-me cego?!
       Basta olhar para ti!
       Ou julgas que dormi?
(Padre, fazendo-se despercebido): Que quereis com isso dizer?
(Demónio, sarcástico e confiante): Basta falar de quando confessaste aquela
       rapariga...
(Padre): Qual rapariga?!
(Demónio, em tom de escárnio): Ora, a que ficou de barriga!
(Padre, gaguejando): Isso... foi..
(Demónio, de rompante): Uma benção!
(Padre, em lágrimas): Oh meu Deus, perdoai-me!
(Demónio, abrindo caminho para o padre): Tarde demais para arrependimento,
       padreco. E agora que me lembrai...
       Temos destino marcado.
       Embarcai embarcai!

E por fim o não-pobre Padre embarcou. E para o inferno foi.
Não tenho intenção de ferir, atingir ou desrespeitar a fé de ninguém. E como tal peço também que respeitem as minhas crenças. Católico não sou, cristão também não. Acredito, e tenho fé, em mim e no alcance dos meus braços. Não acredito em entidades superiores, ora não acreditasse eu na verdadeira igualdade.
Espero que tenham gostado!

sexta-feira, 14 de março de 2008

Utópico mundo

     Nove meses passaram. E finalmente, tenho férias. Durante tanto tempo, torna-se utópico acreditar que, em poucas horas, poderei finalmente respirar, fundo, e sem entraves.
     Vou para um mundo que considero de sonho, longe da metrópole. Tem verdes luxuriantes, passarinhos sem conta e elfos dos bosques. O tempo passa devagar e com mais leveza que a do vento.
     Não é um mundo perdido. Quem quiser pode encontrá-lo. Mas vê-lo... sei que nem todos conseguem! É preciso sonhar. Sonhar acordado, imaginando outra realidade pralém da que se vê. Sonhem, e deixem-se absorver!


Feliz páscoa.